Pérolas aos poucos

Joshua Bell

Gene Weingarten

Uma experiência extraordinária para testar a nossa capacidade de reação ao belo: botar um virtuose para tocar no metrô

[…] A apresentação foi encomendada pelo Washington Post como uma experiência em matéria de contexto, percepção e prioridade - além de servir para uma avaliação inapelável do gosto do público: num cenário banal e numa hora inconveniente, a beleza conseguiria transcender? Ninguém sabia, mas aquele tocador de violino, de pé junto à parede nua, na galeria subterrânea de acesso à estação do metrô, perto do alto da escada rolante, era um dos melhores instrumentistas eruditos do mundo, executando algumas das mais elegantes peças musicais jamais escritas, num dos violinos mais valiosos jamais fabricados por mãos humanas.

[…] Nos quase três quartos de hora que Joshua Bell tocou, sete pessoas pararam o que estavam fazendo para ficar por perto e acompanhar a música por, pelo menos, um minuto. Vinte e sete deram dinheiro,- totalizando 32 dólares e trocados. O que nos deixa com 1 070 pessoas que passaram por ali às pressas, sem perceber nada, muitas a apenas 1 metro do músico, poucas nem sequer virando o rosto para olhar.

Toda a experiência foi gravada em vídeo, por uma câmera oculta. Acelerada, a fita se transforma num desses filmes mudos de atualidade da época da I Guerra Mundial. As pessoas passam correndo aos saltos ou aos arrancos, com copos de café nas mãos, telefones celulares no ouvido, crachás sacudindo na barriga, uma sinistra dança macabra em honra da indiferença, da inércia e da pressa cinzenta e enlouquecida da modernidade.

[…] Bell era uma obra de arte sem moldura. O que, conforme veremos, pode ter muito a ver com o que aconteceu.

Pelas mãos de Mark Leithauser já passaram mais obras-primas de arte do que pelas mãos de qualquer rei, papa ou membro da família Medici. Curador-chefe da National Gallery, é ele quem supervisiona o emolduramento dos quadros. Leithauser acha que tem alguma idéia do que aconteceu naquela estação de metrô.

“Digamos que eu pegasse uma das nossas obras-primas mais abstratas, por exemplo, um Ellsworth Kelly, tirasse da moldura, descesse com ele os 52 degraus que as pessoas costumam subir para chegar à National Gallery, e o levasse até um restaurante. É um quadro que vale 5 milhões de dólares. E o restaurante é um desses onde se encontram obras de arte originais à venda, pintadas por algum jovem muito produtivo da Escola de Corcoran. E digamos que eu pendurasse o Kelly na parede e pedisse 150 dólares por ele. Ninguém iria reparar. Um curador de arte, talvez, poderia bater com os olhos no quadro e dizer: ‘Olhe só, aquele quadro parece um pouco com as coisas de Ellsworth Kelly. Passe o sal, por favor’”.

[…] O poeta Billy Collins certa vez observou com humor que todos os bebês nascem conhecendo poesia, porque a batida do coração da mãe forma um iambo. E então, disse Collins, a vida começa a sufocar aos poucos a poesia que havia em nós. O que também pode se aplicar à música.

Não há um padrão étnico ou demográfico que possa diferenciar as pessoas que ficaram para ouvir Bell, ou as que deram dinheiro, da vasta maioria que seguiu o seu caminho apressado, sem tomar conhecimento do músico. Há brancos, negros e asiáticos, jovens e velhos, homens e mulheres, representados nos três grupos. Só existe um grupo demográfico cujo comportamento foi sempre consistente. Toda vez que uma criança passava, tentava parar para assistir. E, toda vez, o pai ou a mãe não deixava.

Bell era uma obra de arte sem moldura. O que, conforme veremos, pode ter muito a ver com o que aconteceu - ou, mais precisamente, deixou de acontecer - nesse dia 12 de janeiro.

Pelas mãos de Mark Leithauser já passaram mais obras-primas de arte do que pelas mãos de qualquer rei, papa ou membro da família Medici. Curador-chefe da National Gallery, é ele quem supervisiona o emolduramento dos quadros. Leithauser acha que tem alguma idéia do que aconteceu naquela estação de metrô.

“Digamos que eu pegasse uma das nossas obras-primas mais abstratas, por exemplo, um Ellsworth Kelly, tirasse da moldura, descesse com ele os 52 degraus que as pessoas costumam subir para chegar à National Gallery, e o levasse até um restaurante. É um quadro que vale 5 milhões de dólares. E o restaurante é um desses onde se encontram obras de arte originais à venda, pintadas por algum jovem muito produtivo da Escola de Corcoran. E digamos que eu pendurasse o Kelly na parede e pedisse 150 dólares por ele. Ninguém iria reparar. Um curador de arte, talvez, poderia bater com os olhos no quadro e dizer: ‘Olhe só, aquele quadro parece um pouco com as coisas de Ellsworth Kelly. Passe o sal, por favor’”. 

[…] O poeta Billy Collins certa vez observou com humor que todos os bebês nascem conhecendo poesia, porque a batida do coração da mãe forma um iambo. E então, disse Collins, a vida começa a sufocar aos poucos a poesia que havia em nós. O que também pode se aplicar à música.

Não há um padrão étnico ou demográfico que possa diferenciar as pessoas que ficaram para ouvir Bell, ou as que deram dinheiro, da vasta maioria que seguiu o seu caminho apressado, sem tomar conhecimento do músico. Há brancos, negros e asiáticos, jovens e velhos, homens e mulheres, representados nos três grupos. Só existe um grupo demográfico cujo comportamento foi sempre consistente. Toda vez que uma criança passava, tentava parar para assistir. E, toda vez, o pai ou a mãe não deixava.

[…] O herói cultural do dia chegou a L’Enfant Plaza com bastante atraso, na figura nada impressionante de um certo John Picarello, um homem baixo de cabeça calva.

Picarello chegou ao alto da escada rolante logo depois que Bell começara seu número final, uma reprise da Chaconne. No vídeo, pode-se ver Picarello parar completamente, localizar a fonte da música e então se dirigir para o lado oposto da galeria. Ele assume posição ao lado da banca de engraxate, em frente à fila da loteria, e não moverá um músculo pelos nove minutos seguintes.

Como todos os passantes entrevistados para este artigo, Picarello foi abordado por um repórter logo depois de deixar a estação, e lhe pediram o número do seu telefone. Como em todos os casos, disseram-lhe que era para um artigo sobre os transportes coletivos. Quando lhe telefonamos mais tarde naquele mesmo dia, a primeira pergunta que fizemos foi se alguma coisa fora do comum tinha lhe acontecido a caminho do trabalho. Das mais de quarenta pessoas contatadas, Picarello foi o único a mencionar de imediato o violinista.

— Havia um músico tocando no alto da escada rolante na L’Enfant Plaza. — E o senhor nunca tinha visto um músico ali? — Não como este. — Como assim? — Era um violinista soberbo. Nunca ouvi ninguém daquele calibre. Era tecnicamente perfeito, com um fraseado muito bom. E também estava tocando um bom violino, com um som cheio e rico. Eu me afastei um pouco para ficar ouvindo. Não quis invadir o espaço dele. — É mesmo? — É. Foi uma experiência fora do comum. Foi um presente, um modo maravilhoso, incrível, de começar o dia.

Picarello conhece música clássica. É admirador de Joshua Bell, mas não o reconheceu.Não tinha visto nenhuma foto recente do músico e, além disso, ficou quase o tempo todo bem longe. Mas sabia que quem estava tocando não era um músico qualquer. No vídeo, dá para ver Picarello olhando em volta de vez em quando, totalmente desconcertado.

Quando Picarello era jovem, em Nova York, estudou seriamente violino, com a intenção de tornar-se concertista. Mas acabou desistindo aos 18 anos, quando concluiu que nunca chegaria a ser bom o bastante para valer o esforço. Às vezes você precisa fazer a escolha mais prudente. E ele escolheu outra linha de trabalho. É supervisor nos Correios. E não toca mais muito violino.

Quando foi embora, conta Picarello, “deixei humildemente 5 dólares”. E foi mesmo humilde, o que dá para ver claramente no vídeo. Picarello se aproxima, mal olhando para Bell, e deixa cair a nota na caixa. Depois, como que encabulado, afasta-se a passo rápido do homem que no passado desejara ser.

Pérolas aos poucos, por Gene Weingarten

Tags: música beleza

(Source: yimmyayo)

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